Domingo, dia 17 de dezembro, o filho gremista pergunta para
o pai, também
gremista:
- Pai, porque os colorados estão comemorando?
- Porque eles foram campeões do mundo, diz um conformado
pai.
- Mas pai, nós também somos campeões
do mundo, né?
- Sim!, exclama imediatamente um animado pai. Ao fundo, foguetório.
- Pai, tem vídeo teu no youtube na comemoração
e fotos da festa do Mundial?
- Não, guri. Naquela época não existia
youtube e câmera digital. Aliás, nem internet
tinha.
- Não???? Bah, que estranho... E o Inter ganhou do
Barcelona, aquele time que vemos todos os domingos na tv,
né?
E nós, de quem ganhamos?
- Do Hamburgo, 2x1 na prorrogação.
- Hamburger? Que time é este?
- HamburGO. Na época era o campeão europeu.
- E depois?
- Nunca mais ganhou nada, hoje é time médio
na Alemanha. Eles foram com time misto, tavam mal no Alemão.
- Mas eram bons? Tinham craques que nem o Ronaldinho, o Deco,
o Eto\'o?
- Claro, tinha o... Rollf e o Magath!
Confuso, mas confiando no pai, o guri diz: - Hm, tá
bom... Ah, este Hamburger era que nem o Once Caldas da Colômbia,
né?
- Como você pergunta coisas! Já falei que é
HAMBURGO, com GÊ-Ó no final! O que mais tu quer
saber, hein?
- Contra quem jogamos nas semifinais? Um time da Ásia?
- Não, guri. Na época não tinha isto,
era um jogo só da Europa contra a América do
Sul.
- Hm, entendi.. Então na época, só haviam
descoberto dois continentes?
- Mas saco (nesta hora o pai já está bem irritado
com o interrogatório)! Não, é que não
tinha representantes dos outros continentes. Era só
1 jogo, e só entre eles.
Tentando amenizar, mas muito curioso ainda , o menino pergunta:
- Pai, tem imagem de TV da entrega da nossa taça do
Mundial?
- Tenho! Peraí, tenho que pegar o videocassete betamax
que tá no sótão e instalar na TV velha
da sala.
O pai vai rápido, todo feliz e instala em 10 minutos.
A imagem tá ruim, mas dá para ver a entrega
direito.
Neste momento, passa uma horda de colorados na frente do
prédio gritando:
\"colorado, colorado: nada vai nos separar...\"
- Pai, quem é este japonês que tá entregando
a taça pro nosso time? Era o presidente da FIFA na
época?
Quem era antes do Blatter?
- Hm, não lembro. Deixa eu ver o que tá escrito
na tela. Ah, tá ali. \"Toyota
Maintenance Manager\", então é o Gerente
de Manutenção da Toyota.
- Entendi tudo então pai! Então quer dizer que
também somos campeões do mundo, mas na época
não tinha internet nem câmera digital, e gravado
em um sistema que não existe mais. Que ganhamos de
um time que era zebra na Europa, que não tinha semifinal
e o mundo do futebol
só tinha dois continentes. E que o prêmio pela
conquista foi entregue por um
funcionário subalterno da patrocinadora do jogo...
O pai suspira, escutando pela milésima vez ao fundo
\".. o teu presente diz tudo, trazendo a torcida alegres
emoções...\" e diz: \"é, vai
ser difícil convencer o outro...\"
Teste do Campeão
do Mundo
::. Teste enviado por
Marcelo Verçoza Gonçalves. Boa!!
1- Como você soube que seu time foi campeão do
mundo?
a)vi na TV, li na internet em real time e escutei no rádio,
tudo ao
mesmo tempo.
b)meu pai me contou.
c)vi no programa "grandes momentos do esporte",
especial do século passado.
d)vi uma fita de video beta-max, com imagens colorizadas por
computador.
2- Contra que time o seu time foi campeão do mundo?
a) contra o Sanduíche Natural Futebol Clube;
b) contra o Sociedade Esportiva e Recreativa Torrada;
c) contra o Clube de Regatas Cachorro Quente;
d) contra o MSI/Hamburguer;
e) contra o Fútbol Club Barcelona.
3- Cite o nome de um jogador do time adversário.
a) essa você me pegou!!
b) peço ajuda aos universitários.
c) vou perguntar pro meu pai.
d) se tu quiser, te dou a escalação completa.
4- Como você comemorou o título?
a) não lembro. tomei um trago absurdo.
b) não lembro. era criança de fralda.
c) lembro. tomei um trago absurdo, estourei foguetes e comemorei
muito.
d) lembro. dormi com minha mãe porque estava com medo
dos foguetes.
5- Que músicas você vai cantar no estádio
ano que vem?
a) As mesmas do ano passado, em português;
b) We are the Champions;
c) Teremos reunião de torcida, porque todas as músicas
se tornaram
desatualizadas e em espanhol não dá mais pra
cantar, pois vão soar
derrotadas demais;
d) Eu não canto. Fico me divertindo na analvalanche.
d) Alguma coisa que demonstre que não nos abatemos
com a conquista triunfal do co-irmão. Estou decorando
as letras de "Macho-Man" e "I will survive".
Não me
Acordem
::. Autor: Luis
Fernando Verissimo
Enviado por Tiago Loureiro
O passado é prólogo. Certos acontecimentos dão
força a esta frase, transformam tudo que veio antes
em preliminar, em mero antecedente. Ou, para usar outro termo
literário, em prefácio. Você se dá
conta de que tudo que houve até ali - toda uma vida,
toda uma história - foi simplesmente preparação
para aquele certo momento, depois do qual nada será
como era. E o passado ganha uma lógica que não
tinha. Você passa a entender tudo em retrospecto. Tudo
tinha um sentido que você apenas não percebera,
na falta do momento máximo. A vitória do Grêmio
em Tóquio em 83, os anos medíocres, o quase
rebaixamento, as finais desperdiçadas, os vexames,
as desilusões - tudo era prólogo para ontem.
Agora ficou claro, agora ficou lógico. O próprio
destaque como melhores do mundo conquistado pelo Barcelona
e pelo Ronaldinho fazia parte da preparação
para o nosso 17 de dezembro, que não teria o mesmo
gosto épico se o adversário fosse outro. Tudo
era armação para aumentar o brilho e o drama
do nosso momento máximo. Tudo se encaixava. Ou você
pensa que a saída do Pato e do Fernandão, ontem,
foi obra do acaso, esse autor sem imaginação?
O resultado de ontem veio sendo construído aos poucos,
desde antes da fundação do Internacional, antes
de Pedro Álvares Cabral, antes de Homero e das Pirâmides.
E eu sabia que havia uma justificativa histórica para
o topete do Gabiru.
Há dias a leitora Poliana Lopes me lembrou de um texto
que eu tinha escrito, e esquecido. Ela teve a gentileza de
me mandar o texto, e eu peço licença para repeti-lo
agora. Era assim:
"Meu caro colorado. Desculpe esta carta a céu
aberto, é que não sei nem seu nome nem seu endereço.
Na verdade, só vi você na rua, de mãos
dadas com seu pai e cercado pelos seus irmãos, que
vestiam a camiseta do Grêmio (suponho que fossem seu
pai e seus irmãos). Você estava com a camiseta
do Internacional. Quase parei o carro para olhar melhor, mas
não era miragem. Você tinha uns quatro ou cinco
anos e estava de camiseta vermelha! Seu pai vestia uma camisa
branca exemplarmente neutra, mas posso imaginar como tem sido
a sua vida em casa. As provocações, os petelecos,
a flauta, o martírio. E lá estava você
de camiseta vermelha, o antigo escudo orgulhosamente no peito,
desafiando todas as provações. Não sei
se você sabe que vários colorados da sua geração
não agüentaram e trocaram de time. Levaram pais
e avós ao desespero, mas não suportaram a pressão
do sucesso gremista. Você agüentou. Você
não sabe, mas é um herói. E fiquei pensando
que, quando for a nossa vez de novo, teremos certamente a
torcida mais dedicada, fiel, convicta e feliz do Brasil. Porque
será a torcida dos que resistiram. Agüente só
mais um pouco. Meus respeitos."