Galácticos Gaudérios

::. Autor: Juremir Machado da Silva


Aconteceu! Aconteceu aquilo que alguns diziam ser impossível: o Internacional tingiu de vermelho o mundo num domingo que entrou ao vivo para a história do futebol. Os galácticos gaudérios, pois é assim que devem ser chamados para sempre, venceram o poderio econômico do Barcelona e mostraram ao planeta que, no esporte, o talento, a motivação e o espírito coletivo contam mais do que o dinheiro. Mais uma vez, o estilo gaúcho, forjado a ferro e a fogo nas batalhas do passado, demarcou fronteiras. O Inter foi para o combate disposto a morrer pela sua causa: a vitória.

Não podemos agora ter medo das palavras grandiosas. No Japão, o Internacional viveu, ao mesmo tempo, uma epopéia, uma guerra e um momento absolutamente mágico de entrega total, de raça e de superação. Essa é a magia do futebol: de repente, um jogador desconsiderado explode, decola, surpreende e cria o fato que ganha o mundo. Na terra do sol nascente, o Inter fez o milagre da multiplicação das surpresas. Contra o Barcelona, Clemer foi soberano. Ceará foi mais do que um guerreiro. Foi a sombra de Ronaldinho e a encarnação da luta.

Foi a própria guerra. Fabiano Eller e Índio pareciam dois deuses de pedra,
impávidos, colossos, gigantes, serenos no coração da batalha. Índio deu
literalmente o seu sangue pela vitória. Rubens Cardoso, chamado ao combate para substituir um herói ferido, atacou pelos flancos, desestabilizando o inimigo e abrindo brechas imensas numa retaguarda frágil, mas cheia de soberba.

No meio-campo, Edinho calou para sempre todas as nossas bocas que um dia dele duvidaram. Foi implacável e preciso. Wellington Monteiro, herói saído há pouco do nada, reinou soberano nas antecipações e até nos dribles desconcertantes. Alex lutou até cansar. Vargas entrou no seu lugar e, feito um lanceiro destemido vindo da América espanhola, desarmou, marcou, fustigou e se impôs.

Do meio para a frente, os galácticos gaudérios foram ainda mais
surpreendentes. Fernandão reinou nos dois jogos disputados, mesmo sem
espalhafato, como se fosse a própria lança, um mastro ferino e feroz
disfarçado de elegância e de equilíbrio. Foi o líder, o capitão, o conselheiro, o amigo, um Sepé Tiaraju que nunca temeu e nunca vacilou. Ferido em combate, cedeu lugar a Adriano, um guerreiro desacreditado. Pois os deuses
do futebol deram a ele o direito de ser o protagonista do lance maior, o gol.
Foi a redenção de um homem, cujo talento só esperava a hora da consagração.

Bem na frente, no meio da retaguarda adversária, alternaram-se dois meninos e um veterano. Alexandre Pato saiu da juventude e do quase anonimato para marcar um gol contra os egípcios, brigar até a exaustão contra os catalães e se transformar em campeão dos mundo aos 17 anos, mais jovem até mesmo do que Pelé. Luiz Adriano, outro guri, algumas vezes ferido pela nossa desconfiança de torcedores impacientes, marcou o gol que levou o Inter à final e brigou na batalha derradeira como se fosse um velho guerreiro. Finalmente, o pequeno Iarley, um predestinado, um gigante, o guerreiro entre os guerreiros. Foi dele a genial articulação que desmontou a invencível armada espanhola e deixou seu companheiro Adriano em condições de desferir o golpe mortal. Pela segunda vez, Iarley conquistou o mundo no Japão. Desta vez, pelo seu país.

Fora de campo, três comandantes bafejados pela sorte: o técnico Abel, tantas vezes atacado por todos nós, por nossa paixão desmesurada, o presidente Fernando Carvalho e o preparador físico Paulo Paixão. Abelão tirou o melhor do estilo gaúcho e foi além: entrou no campo de batalha com três atacantes, três centroavantes, para enfrentar nada mais nada menos do que o considerado maior time do mundo, o Barcelona, do genial Ronaldinho Gaúcho. Abel, com seus erros e seus acertos, reinventou o futebol gaúcho e mostrou ao mundo que se pode defender muito sem abrir mão dos atacantes. O presidente Fernando Carvalho soube semear e esperar a colheita em meio aos temporais. Nunca desanimou. Jamais se dobrou. Venceu. Paulo Paixão forjou o corpo, temperou os músculos e esculpiu as armas da vitória.

Por tudo isso, colorados, o Inter, orgulho do planeta, será para sempre uma
marca vermelha a envolver a Terra. O mundo sabe agora que em nosso poncho vermelho ninguém pisa. Ou leva bala e gol. Se vista de cima a Terra já foi azul, vista de baixo, do Sul, do pampa, do Rio Grande, desta América de língua portuguesa e futebol universal, ela é definitivamente vermelha. O mundo sabe agora que os verdadeiros galácticos se cobrem de vermelho e branco e são gaudérios. Os galácticos gaudérios jamais serão esquecidos.


GAYmista Pagando Aposta

::. Valeu, Roberto!!


Este é o resultado de uma aposta entre um COLORADO e um GAYmista no Mundial:


Apostei com o colorado Miro aquilo que absolutamente todos os gremistas sabíamos: que o Barça ia detonar eles, de preferência com um gol do Ronaldinho Gaúcho.

Quem perdesse teria que relatar por escrito todo o envolvimento com o jogo: antes, durante e depois. Em detalhes absolutamente sinceros, do tipo "doa a quem doer".

Não bastando a minha cabeçadurice, nos comprometemos a divulgar os endereços de e-mail na Internet, tudo assinado em um Termo de Compromisso - para oficializar o negócio (nomes e e-mails abaixo).

Fui dormir na noite de sábado (16/12/2006) absolutamente tranqüilo, contrastando com alguns amigos colorados que já haviam me confidenciado que não pegavam no sono desde o cagaço contra o time africano.

Acordei no domingo às oito da manhã com o barulho dos foguetes - mais motivo ainda prá secar, pensei.

Começou o jogo, com um equilíbrio de apenas cinco minutos. Logo os espanhóis tomaram conta, e eu relaxei. Cada bola tocada nos habilidosos pés de Ronaldo, Deco e companhia era um alento, uma deliciosa espectativa de que a derrota "deles" logo não tardaria a chegar. Tirando fora uma escapada do Pato em cima do Puyol e uma virada sobre si mesmo do Fernandão, lançando em seguida para o Ceará, os macacos estavam sem opção de jogo. Não arriscavam, apenas se defendiam. Pênalti clamoroso não marcado no Ronaldinho, Clemer batendo roupa em chute fácil, Edinho tirando dos pés do Gudhjhonsen na pequena área - chegava a dar pena...

E eu com a certeza de que o gol era apenas questão de tempo. Quando faltavam dois minutos para o intervalo, fui dar uma cagada clássica e, no banheiro, ouvi vários gritos e foguetes. Pensei: pronto, gol do Barça. Esperei mais um pouco e constatei que se tratava apenas do final da primeira etapa. Coitados. Soltaram foguetes porque passara o primeiro tempo e eles não haviam tomado gol. Era só esperar...

Começou o segundo tempo e parecia que o jogo tinha amornado um pouco. Mesmo assim, Ronaldinho, Deco, Tiago Motta, Puyol e Rafa Márquez transmitiam tanta segurança que minha convicção continuava inabalável. Eles não erravam nenhuma jogada, nenhum passe. Pouco mais da metade do segundo tempo: tive um momento de fraqueza, pois me lembrei do Felipão e sua trupe conquistando vitórias impossíveis. Quando Fernandão e Índio se lesionaram e só havia uma substituição, pensei: "essa merda tá tomando ares de jogo heróico!!!". Quando Índio ficou de fora por cinco minutos e voltou ainda sangrando e Fernandão saiu para a entrada do até então inútil Gabiru, comecei a me encagaçar. Só falta esse cara entrar e faturar o Barça! Dito e feito: aquela escapada me derrubou de um arranha-céu. Depois do gol ainda houve o chute do Deco no ângulo, a falta batida quase perfeita pelo Ronaldinho Gaúcho, o lance dentro da área com o Clemer se jogando nos pés do Giu e salvando mais uma. Quando o juiz apitou o fim do jogo eu estava em pé e sentei na poltrona, com o coração acelerado. Levei as mãos à cabeça e pensei: não acredito, não acredito, eles ganharam...

Galvão Bueno se emocionava por estar ao lado de um colorado (Falcão), sua voz demorava a sair - ficou nitidamente embargada. Mostraram a festa no Parcão. Me atirei no sofá, deitado. Desliguei a TV e tentei voltar a minha vida normal. Negativo: os foguetes e gritos da macacada não deixavam que eu pensasse em outra coisa. Comecei a enjoar, me sentir mal. Minha namorada Alinne veio até a sala e viu que algo estava por acontecer. Viu que eu estava passando mal. Me trouxe um copo d'água e me disse para relaxar e ligar a TV. Continuei passando mal e após uns cinco minutos liguei a TV de novo. E então veio o imponderável: comecei a me emocionar ao assistir as imagens da TV. Parcão, festa em campo, Galvão e Falcão emocionados, luta de Davi contra Golias, comecei a lembrar do meu povo gaúcho - que conquistara tudo na base da luta, da garra. Lembrei da nossa conquista em Tóquio, dos gols do Renato Portaluppi, lembrei do Felipão e da derrota para o poderoso Ajax (do Rijkaard que ali estava de novo). Comecei a ficar com os braços arrepiados e com os olhos cheios de lágrimas. Aquele nó na garganta ficou maior, veio a vontade de chorar. Tocou o telefone celular, era o Miro, não atendi. Tocou o convencional. Também não dei bola. Certamente era ele querendo tirar onda. Fiquei confuso, meus sentimentos e reações eram completamente contra o meu raciocínio. Esfregava a minha pele dos braços para fazer sumir aquele arrepio, engolia em seco e secava os olhos para que eles não chorassem. Puta-que-o-pariu, que vitória - pensei. Era uma façanha, sem dúvida. Havia presenciado a uma epopéia e, de certa forma, fazia parte dela. Comecei a sentir orgulho. Orgulho de um povo que não se entrega diante das históricas adversidades e injustiças. Tranquei-me no quarto e chorei. Chorei muito. Soluçava baixinho para que Alinne não percebesse, ela que estava no computador - preocupada com sua monografia. Da janela, observei colorados aparecidos de todos os cantos, todos de vermelhos, alegres, cantantes a desfilarem pela rua. O celular tocou novamente, era o Miro de novo. Atendi. Disse a ele: "Cara, parabéns! Foi do caralho! Sequei até o último segundo, mas tenho que reconhecer que foi merecido. Parabéns!"

Ele me disse: "Não te esquece de me pagar aquela aposta, alemão secador!"

Aqui está ela. Tenho palavra. E não sou daqueles gremistas que não vai a campo. Estou sempre lá, com chuva ou com sol, frio ou calor!

Acho que muitos sentiram o que senti, mas têm vergonha de contar. Eu não contaria se não tivesse apostado. Taí o resultado, abaixo segue o meu nome e e-mail e o nome e e-mail do Miro, tudo conforme reza nosso acordo.

Um abraço!


Luis Fernando Fleck Reolon - luisfernando.reolon@gmail.com

Paulo Belmiro Acosta Camargo - paulobelmiro@bol.com.br


Tempo COLORADO

::. Autor: Artur Pinto - Maceió


Ah, um ano. Quantas coisas podem acontecer em um ano? Muitas. Muitas mesmo. Começar sendo chamado de adjetivos como \"regional\" e similares e terminar como dono do Mundo. Começar com um técnico \"vice\", vendo ele dar-lhe as maiores glórias. Começar com Bolívar, Jorge Wagner, Sóbis, Tinga, e terminar com Índio, Rubens Cardozo, Alexandre Pato e Adriano. Começar Internacional... e terminar INTERNACIONAL.

Ah, 7 dias... 7 dias são uma semana. Mas que loonga semana que viveste, hein colorado? Ela durou, com certeza, muito tempo. Maldita teoria da relatividade! Por que o tempo não passava... por quê? Mas ele passou. Ele passou, torcedor colorado.Você, que segurou tantas lágrimas para escapar das gozações de teus rivais, agora sorri. Teus rivais choram, choram pela tua felicidade. Pois você tomou seu posto, e o limpou da lama da soberba. Lembra do texto do Andreas, depois do Gauchão? Ah, eu também. Lá tinha um trecho, não necessariamente igual, que dizia: \"Quando nós tivermos títulos, não iremos amar o clube por causa deles, como \'eles\'. Nós iremos
amar os títulos por causa do clube. Não iremos amar os títulos, mas sim o Sport Club Internacional, Campeão do Mundo ou não.\" Sim, admito que modifiquei muito o trecho. Perdoem-me. Perdoem-me denovo. Já ia fugindo do contexto. Os sete dias, que separam um jogo apático e ruim do \"futuro adversário\" e a maior alegria de nossas vida s. Mas o caminho entre eles, embora curto, foi difícil. Incontáveis as gozações que ouvi. Que você ouviu. Que nós ouvimos. Provamos que a confiança é maior que o medo. Provamos que a paciência é maior que a gozação. Provamos que o Mundo é maior que
tudo. Só não que o nosso amor a ti, Inter.

Ah, um minuto. Quanta coisa pode acontecer em um minutinho? Muita, muita mesmo. Pode, às vezes, parecer uma eternidade. Mas também pode parecer um segundo. Em um minuto, Índio chuta, Adriano cabeceia, Luiz Adriano também. Iarley arranca, passa pra Adriano. Ah, Adriano. Tão criticado, tão vaiado, tão... colorado. Repete a façanha de poucos, do quilate de Valdomiro e Rafael Sóbis. Das críticas ao papel de herói. Gol, um a zero. E que um a zero! É o um a zero da raça, da garra, da vontade,
e de todos os seus sinônimos. É o um a zero da união, da força, e por que não, do talento. É o um a zero do um minuto.

Ah, um segundo. Foi o tempo em que simplesmente Clemer chutou e a bola subiu. Mas para você, colorado, e para mim, foi um resumo de uma vida, de uma história de amor. Tantas vitórias, tantas derrotas, e continuamos do lado do Inter. Em um segundo, me ví em todos os jogos no Beira Rio. Em um segundo, me vi triste, alegre, feliz, ansioso. O tempo parou para ti, torcedor colorado. E durou a quantidade do amor que sentimos pelo Inter. Durou uma eternidade, durou um ano, durou uma semana, durou um minuto, durou... um segundo.

Parabéns Inter, parabéns torcedor colorado, tu és o Campeão do Mundo!


 
 
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