Aconteceu! Aconteceu aquilo que alguns diziam ser impossível:
o Internacional tingiu de vermelho o mundo num domingo que
entrou ao vivo para a história do futebol. Os galácticos
gaudérios, pois é assim que devem ser chamados
para sempre, venceram o poderio econômico do Barcelona
e mostraram ao planeta que, no esporte, o talento, a motivação
e o espírito coletivo contam mais do que o dinheiro.
Mais uma vez, o estilo gaúcho, forjado a ferro e a
fogo nas batalhas do passado, demarcou fronteiras. O Inter
foi para o combate disposto a morrer pela sua causa: a vitória.
Não podemos agora ter medo das palavras grandiosas.
No Japão, o Internacional viveu, ao mesmo tempo, uma
epopéia, uma guerra e um momento absolutamente mágico
de entrega total, de raça e de superação.
Essa é a magia do futebol: de repente, um jogador desconsiderado
explode, decola, surpreende e cria o fato que ganha o mundo.
Na terra do sol nascente, o Inter fez o milagre da multiplicação
das surpresas. Contra o Barcelona, Clemer foi soberano. Ceará
foi mais do que um guerreiro. Foi a sombra de Ronaldinho e
a encarnação da luta.
Foi a própria guerra. Fabiano Eller e Índio
pareciam dois deuses de pedra,
impávidos, colossos, gigantes, serenos no coração
da batalha. Índio deu
literalmente o seu sangue pela vitória. Rubens Cardoso,
chamado ao combate para substituir um herói ferido,
atacou pelos flancos, desestabilizando o inimigo e abrindo
brechas imensas numa retaguarda frágil, mas cheia de
soberba.
No meio-campo, Edinho calou para sempre todas as nossas
bocas que um dia dele duvidaram. Foi implacável e preciso.
Wellington Monteiro, herói saído há pouco
do nada, reinou soberano nas antecipações e
até nos dribles desconcertantes. Alex lutou até
cansar. Vargas entrou no seu lugar e, feito um lanceiro destemido
vindo da América espanhola, desarmou, marcou, fustigou
e se impôs.
Do meio para a frente, os galácticos gaudérios
foram ainda mais
surpreendentes. Fernandão reinou nos dois jogos disputados,
mesmo sem
espalhafato, como se fosse a própria lança,
um mastro ferino e feroz
disfarçado de elegância e de equilíbrio.
Foi o líder, o capitão, o conselheiro, o amigo,
um Sepé Tiaraju que nunca temeu e nunca vacilou. Ferido
em combate, cedeu lugar a Adriano, um guerreiro desacreditado.
Pois os deuses
do futebol deram a ele o direito de ser o protagonista do
lance maior, o gol.
Foi a redenção de um homem, cujo talento só
esperava a hora da consagração.
Bem na frente, no meio da retaguarda adversária,
alternaram-se dois meninos e um veterano. Alexandre Pato saiu
da juventude e do quase anonimato para marcar um gol contra
os egípcios, brigar até a exaustão contra
os catalães e se transformar em campeão dos
mundo aos 17 anos, mais jovem até mesmo do que Pelé.
Luiz Adriano, outro guri, algumas vezes ferido pela nossa
desconfiança de torcedores impacientes, marcou o gol
que levou o Inter à final e brigou na batalha derradeira
como se fosse um velho guerreiro. Finalmente, o pequeno Iarley,
um predestinado, um gigante, o guerreiro entre os guerreiros.
Foi dele a genial articulação que desmontou
a invencível armada espanhola e deixou seu companheiro
Adriano em condições de desferir o golpe mortal.
Pela segunda vez, Iarley conquistou o mundo no Japão.
Desta vez, pelo seu país.
Fora de campo, três comandantes bafejados pela sorte:
o técnico Abel, tantas vezes atacado por todos nós,
por nossa paixão desmesurada, o presidente Fernando
Carvalho e o preparador físico Paulo Paixão.
Abelão tirou o melhor do estilo gaúcho e foi
além: entrou no campo de batalha com três atacantes,
três centroavantes, para enfrentar nada mais nada menos
do que o considerado maior time do mundo, o Barcelona, do
genial Ronaldinho Gaúcho. Abel, com seus erros e seus
acertos, reinventou o futebol gaúcho e mostrou ao mundo
que se pode defender muito sem abrir mão dos atacantes.
O presidente Fernando Carvalho soube semear e esperar a colheita
em meio aos temporais. Nunca desanimou. Jamais se dobrou.
Venceu. Paulo Paixão forjou o corpo, temperou os músculos
e esculpiu as armas da vitória.
Por tudo isso, colorados, o Inter, orgulho do planeta, será
para sempre uma
marca vermelha a envolver a Terra. O mundo sabe agora que
em nosso poncho vermelho ninguém pisa. Ou leva bala
e gol. Se vista de cima a Terra já foi azul, vista
de baixo, do Sul, do pampa, do Rio Grande, desta América
de língua portuguesa e futebol universal, ela é
definitivamente vermelha. O mundo sabe agora que os verdadeiros
galácticos se cobrem de vermelho e branco e são
gaudérios. Os galácticos gaudérios jamais
serão esquecidos.
GAYmista Pagando
Aposta
::. Valeu, Roberto!!
Este é o resultado de uma aposta entre um COLORADO
e um GAYmista no Mundial:
Apostei com o colorado Miro aquilo que absolutamente todos
os gremistas sabíamos: que o Barça ia detonar
eles, de preferência com um gol do Ronaldinho Gaúcho.
Quem perdesse teria que relatar por escrito todo o envolvimento
com o jogo: antes, durante e depois. Em detalhes absolutamente
sinceros, do tipo "doa a quem doer".
Não bastando a minha cabeçadurice, nos comprometemos
a divulgar os endereços de e-mail na Internet, tudo
assinado em um Termo de Compromisso - para oficializar o negócio
(nomes e e-mails abaixo).
Fui dormir na noite de sábado (16/12/2006) absolutamente
tranqüilo, contrastando com alguns amigos colorados que
já haviam me confidenciado que não pegavam no
sono desde o cagaço contra o time africano.
Acordei no domingo às oito da manhã com o barulho
dos foguetes - mais motivo ainda prá secar, pensei.
Começou o jogo, com um equilíbrio de apenas
cinco minutos. Logo os espanhóis tomaram conta, e eu
relaxei. Cada bola tocada nos habilidosos pés de Ronaldo,
Deco e companhia era um alento, uma deliciosa espectativa
de que a derrota "deles" logo não tardaria
a chegar. Tirando fora uma escapada do Pato em cima do Puyol
e uma virada sobre si mesmo do Fernandão, lançando
em seguida para o Ceará, os macacos estavam sem opção
de jogo. Não arriscavam, apenas se defendiam. Pênalti
clamoroso não marcado no Ronaldinho, Clemer batendo
roupa em chute fácil, Edinho tirando dos pés
do Gudhjhonsen na pequena área - chegava a dar pena...
E eu com a certeza de que o gol era apenas questão
de tempo. Quando faltavam dois minutos para o intervalo, fui
dar uma cagada clássica e, no banheiro, ouvi vários
gritos e foguetes. Pensei: pronto, gol do Barça. Esperei
mais um pouco e constatei que se tratava apenas do final da
primeira etapa. Coitados. Soltaram foguetes porque passara
o primeiro tempo e eles não haviam tomado gol. Era
só esperar...
Começou o segundo tempo e parecia que o jogo tinha
amornado um pouco. Mesmo assim, Ronaldinho, Deco, Tiago Motta,
Puyol e Rafa Márquez transmitiam tanta segurança
que minha convicção continuava inabalável.
Eles não erravam nenhuma jogada, nenhum passe. Pouco
mais da metade do segundo tempo: tive um momento de fraqueza,
pois me lembrei do Felipão e sua trupe conquistando
vitórias impossíveis. Quando Fernandão
e Índio se lesionaram e só havia uma substituição,
pensei: "essa merda tá tomando ares de jogo heróico!!!".
Quando Índio ficou de fora por cinco minutos e voltou
ainda sangrando e Fernandão saiu para a entrada do
até então inútil Gabiru, comecei a me
encagaçar. Só falta esse cara entrar e faturar
o Barça! Dito e feito: aquela escapada me derrubou
de um arranha-céu. Depois do gol ainda houve o chute
do Deco no ângulo, a falta batida quase perfeita pelo
Ronaldinho Gaúcho, o lance dentro da área com
o Clemer se jogando nos pés do Giu e salvando mais
uma. Quando o juiz apitou o fim do jogo eu estava em pé
e sentei na poltrona, com o coração acelerado.
Levei as mãos à cabeça e pensei: não
acredito, não acredito, eles ganharam...
Galvão Bueno se emocionava por estar ao lado de um
colorado (Falcão), sua voz demorava a sair - ficou
nitidamente embargada. Mostraram a festa no Parcão.
Me atirei no sofá, deitado. Desliguei a TV e tentei
voltar a minha vida normal. Negativo: os foguetes e gritos
da macacada não deixavam que eu pensasse em outra coisa.
Comecei a enjoar, me sentir mal. Minha namorada Alinne veio
até a sala e viu que algo estava por acontecer. Viu
que eu estava passando mal. Me trouxe um copo d'água
e me disse para relaxar e ligar a TV. Continuei passando mal
e após uns cinco minutos liguei a TV de novo. E então
veio o imponderável: comecei a me emocionar ao assistir
as imagens da TV. Parcão, festa em campo, Galvão
e Falcão emocionados, luta de Davi contra Golias, comecei
a lembrar do meu povo gaúcho - que conquistara tudo
na base da luta, da garra. Lembrei da nossa conquista em Tóquio,
dos gols do Renato Portaluppi, lembrei do Felipão e
da derrota para o poderoso Ajax (do Rijkaard que ali estava
de novo). Comecei a ficar com os braços arrepiados
e com os olhos cheios de lágrimas. Aquele nó
na garganta ficou maior, veio a vontade de chorar. Tocou o
telefone celular, era o Miro, não atendi. Tocou o convencional.
Também não dei bola. Certamente era ele querendo
tirar onda. Fiquei confuso, meus sentimentos e reações
eram completamente contra o meu raciocínio. Esfregava
a minha pele dos braços para fazer sumir aquele arrepio,
engolia em seco e secava os olhos para que eles não
chorassem. Puta-que-o-pariu, que vitória - pensei.
Era uma façanha, sem dúvida. Havia presenciado
a uma epopéia e, de certa forma, fazia parte dela.
Comecei a sentir orgulho. Orgulho de um povo que não
se entrega diante das históricas adversidades e injustiças.
Tranquei-me no quarto e chorei. Chorei muito. Soluçava
baixinho para que Alinne não percebesse, ela que estava
no computador - preocupada com sua monografia. Da janela,
observei colorados aparecidos de todos os cantos, todos de
vermelhos, alegres, cantantes a desfilarem pela rua. O celular
tocou novamente, era o Miro de novo. Atendi. Disse a ele:
"Cara, parabéns! Foi do caralho! Sequei até
o último segundo, mas tenho que reconhecer que foi
merecido. Parabéns!"
Ele me disse: "Não te esquece de me pagar aquela
aposta, alemão secador!"
Aqui está ela. Tenho palavra. E não sou daqueles
gremistas que não vai a campo. Estou sempre lá,
com chuva ou com sol, frio ou calor!
Acho que muitos sentiram o que senti, mas têm vergonha
de contar. Eu não contaria se não tivesse apostado.
Taí o resultado, abaixo segue o meu nome e e-mail e
o nome e e-mail do Miro, tudo conforme reza nosso acordo.
Um abraço!
Luis Fernando Fleck Reolon - luisfernando.reolon@gmail.com
Paulo Belmiro Acosta Camargo - paulobelmiro@bol.com.br
Tempo COLORADO
::. Autor: Artur
Pinto - Maceió
Ah, um ano. Quantas coisas podem acontecer em um ano? Muitas.
Muitas mesmo. Começar sendo chamado de adjetivos como
\"regional\" e similares e terminar como dono do
Mundo. Começar com um técnico \"vice\",
vendo ele dar-lhe as maiores glórias. Começar
com Bolívar, Jorge Wagner, Sóbis, Tinga, e terminar
com Índio, Rubens Cardozo, Alexandre Pato e Adriano.
Começar Internacional... e terminar INTERNACIONAL.
Ah, 7 dias... 7 dias são uma semana. Mas que loonga
semana que viveste, hein colorado? Ela durou, com certeza,
muito tempo. Maldita teoria da relatividade! Por que o tempo
não passava... por quê? Mas ele passou. Ele passou,
torcedor colorado.Você, que segurou tantas lágrimas
para escapar das gozações de teus rivais, agora
sorri. Teus rivais choram, choram pela tua felicidade. Pois
você tomou seu posto, e o limpou da lama da soberba.
Lembra do texto do Andreas, depois do Gauchão? Ah,
eu também. Lá tinha um trecho, não necessariamente
igual, que dizia: \"Quando nós tivermos títulos,
não iremos amar o clube por causa deles, como \'eles\'.
Nós iremos
amar os títulos por causa do clube. Não iremos
amar os títulos, mas sim o Sport Club Internacional,
Campeão do Mundo ou não.\" Sim, admito
que modifiquei muito o trecho. Perdoem-me. Perdoem-me denovo.
Já ia fugindo do contexto. Os sete dias, que separam
um jogo apático e ruim do \"futuro adversário\"
e a maior alegria de nossas vida s. Mas o caminho entre eles,
embora curto, foi difícil. Incontáveis as gozações
que ouvi. Que você ouviu. Que nós ouvimos. Provamos
que a confiança é maior que o medo. Provamos
que a paciência é maior que a gozação.
Provamos que o Mundo é maior que
tudo. Só não que o nosso amor a ti, Inter.
Ah, um minuto. Quanta coisa pode acontecer em um minutinho?
Muita, muita mesmo. Pode, às vezes, parecer uma eternidade.
Mas também pode parecer um segundo. Em um minuto, Índio
chuta, Adriano cabeceia, Luiz Adriano também. Iarley
arranca, passa pra Adriano. Ah, Adriano. Tão criticado,
tão vaiado, tão... colorado. Repete a façanha
de poucos, do quilate de Valdomiro e Rafael Sóbis.
Das críticas ao papel de herói. Gol, um a zero.
E que um a zero! É o um a zero da raça, da garra,
da vontade,
e de todos os seus sinônimos. É o um a zero da
união, da força, e por que não, do talento.
É o um a zero do um minuto.
Ah, um segundo. Foi o tempo em que simplesmente Clemer chutou
e a bola subiu. Mas para você, colorado, e para mim,
foi um resumo de uma vida, de uma história de amor.
Tantas vitórias, tantas derrotas, e continuamos do
lado do Inter. Em um segundo, me ví em todos os jogos
no Beira Rio. Em um segundo, me vi triste, alegre, feliz,
ansioso. O tempo parou para ti, torcedor colorado. E durou
a quantidade do amor que sentimos pelo Inter. Durou uma eternidade,
durou um ano, durou uma semana, durou um minuto, durou...
um segundo.
Parabéns Inter, parabéns torcedor colorado,
tu és o Campeão do Mundo!